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Dívida vira risco quando o comprometimento de renda passa de 40%

O Banco Central mostra quando a parcela começa a pesar e quais dívidas pioram primeiro. A conta para quem ganha R$ 25 mil e tem R$ 1 milhão de patrimônio.

Escadaria de concreto iluminada por luz natural, com linhas geométricas.Menegon Family Office · MercadoMercado
Fotografia ilustrativa · A L E X / Unsplash

Por Menegon Family Office

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7 min

O Banco Central publicou em 27 de outubro de 2026 o Relatório de Estabilidade Financeira, balanço semestral com dados até junho. O comprometimento de renda das famílias, a fatia da renda mensal que vai para juros e parcelas, atingiu no primeiro semestre o nível mais alto em 21 anos. E o relatório traz uma régua para qualquer casa: nas dívidas mais comuns, o risco de calote sobe em linha reta a partir de 40% da renda comprometida no momento em que o crédito é contratado.

Para quem tem patrimônio e carrega financiamento do imóvel, carro e cartão parcelado, o recado não é “não tenha dívida”. É saber de que lado da linha dos 40% a família está e que dívida ocupa essa fatia: a casa financiada quase não muda o risco; o cartão e o crédito pessoal sem garantia, sim.

O que o relatório do Banco Central mostrou

Quatro números do relatório pesam no orçamento de qualquer família:

  • Comprometimento de renda recorde. Medido devedor por devedor, 38,5% da renda em junho (média aparada a 1%, que descarta os casos mais extremos): 42,0% na faixa de até dois salários mínimos, 18,7% acima de dez salários. Só o cartão leva 15,0% da renda na faixa mais baixa e 3,8% na mais alta (anexo estatístico do relatório). A medida agregada do Banco Central (série 29034), que divide as parcelas pela renda de todas as famílias, inclusive as sem dívida, marcava 28,72% em julho.
  • Ativos problemáticos em 9,2% do crédito às pessoas físicas em junho, perto do pico de 9,3% de maio de 2026, patamar que a maioria dos tipos de crédito não via desde 2012, segundo o Banco Central. Ativo problemático é o empréstimo com atraso acima de 90 dias ou com sinais de que não será pago por inteiro. O ponto mais baixo recente foi 6,3%, em outubro de 2021.
  • Parte da alta é efeito de uma mudança de regra. Desde o início de 2025, pela Resolução 4.966 do Conselho Monetário Nacional (CMN), cada banco define quando dá uma dívida como perdida (a baixa a prejuízo), e até lá o atraso continua nos números. Pela regra antiga, a inadimplência de todo o sistema em junho seria 0,78 ponto percentual menor, o que corresponde a cerca de 45% da alta de 1,76 ponto desde dezembro de 2024. Mesmo assim, ela teria subido.
  • 20,3 milhões de endividados de risco em junho, quem está perto do superendividamento: 17% dos devedores, contra 9,7% em junho de 2021, 75% a mais em cinco anos.

A régua dos 40%, aplicada a uma família de exemplo

Pense numa família com renda mensal de R$ 25 mil e patrimônio de R$ 1 milhão, com três dívidas abertas. Os valores são de exemplo.

Dívida Parcela por mês Fatia da renda
Financiamento do imóvel R$ 6.500 26,0%
Financiamento do carro R$ 2.200 8,8%
Cartão parcelado R$ 1.800 7,2%
Total R$ 10.500 42,0%

Como fizemos a conta. Cada parcela dividida pela renda de R$ 25 mil: 26%, 8,8% e 7,2%; somadas, R$ 10.500 ÷ R$ 25 mil = 42%. A linha dos 40% fica em R$ 10 mil por mês (R$ 25 mil × 0,40); a dos 50%, um dos critérios de endividamento de risco, em R$ 12.500.

A família está R$ 500 acima da primeira linha: com imóvel e carro somando R$ 8.700, cabem R$ 1.300 de cartão sem passar de 40%, e ela tem R$ 1.800. Um corte de R$ 500 no cartão a devolve ao lado folgado. Na sua conta, inclua também o parcelado sem juros, que a medida individual do Banco Central deixa de fora.

Crédito que compra ativo não pesa como crédito que paga consumo

Para um mesmo comprometimento de renda, o risco de calote varia conforme o tipo de crédito. No financiamento da casa e no consignado (empréstimo descontado direto na folha de pagamento), o risco quase não muda com o percentual comprometido na hora de contratar; em veículos, crédito pessoal sem garantia e cartão com juros, ele sobe em linha reta a partir de 40%.

Na família do exemplo, 26 dos 42 pontos são o imóvel, dívida que compra um ativo, um bem que fica e tende a guardar valor. Os outros 16 pontos, R$ 4 mil por mês, são carro e cartão: R$ 48 mil por ano, 4,8% do patrimônio de R$ 1 milhão, gastos com o que perde valor ou não fica. Os critérios para separar um crédito do outro estão em dívida boa.

A dívida sem garantia é a que mais deixa de ser paga

Empréstimos a pessoas físicas com problema de pagamento, por tipo de crédito, em % do total emprestado em cada tipo, junho de 2026

A dívida sem garantia é a que mais deixa de ser paga
Crédito pessoal não consignado14,9%
Cartão de crédito12,7%
Crédito rural10,3%
Total das pessoas físicas9,2%
Financiamento de veículos8,5%
Financiamento habitacional5,1%
Consignado (desconto em folha)5,0%
Problema de pagamento é atraso acima de 90 dias ou sinal de que a dívida não será paga por inteiro. Uma regra de 2025 (Resolução 4.966 do Conselho Monetário Nacional) deixa o atraso mais tempo nos balanços dos bancos e eleva o número; segundo o Banco Central, a inadimplência teria subido mesmo pela regra antiga. Fonte: Banco Central, Relatório de Estabilidade Financeira de outubro de 2026 (27/10/2026).

O gráfico confirma a régua: crédito pessoal não consignado (14,9% dos empréstimos com problema) e cartão (12,7%) lideram; seguem rural (10,3%), veículos (8,5%), habitacional (5,1%) e consignado (5,0%). Veículos, rural e consignado estão no ponto mais alto da série do anexo estatístico, que começa em dezembro de 2018; cartão e não consignado recuaram do pico de maio (13,2% e 15,2%, respectivamente).

Os quatro critérios do endividamento de risco

Endividamento de risco é a régua do Banco Central para quem está perto do superendividamento. Entra quem atende a dois ou mais destes pontos:

  1. Atraso acima de 90 dias em alguma parcela.
  2. Mais de 50% da renda mensal comprometida com juros e parcelas das dívidas.
  3. Uso ao mesmo tempo de cheque especial, crédito pessoal sem desconto em folha e cartão rotativo (a parte da fatura que fica sem pagar e segue com juros).
  4. Renda que sobra, depois das dívidas, abaixo da linha de pobreza.

A régua mede fragilidade, não atraso já ocorrido. A família do exemplo não atende a nenhum critério; quem passa dos 50% e fecha o mês com rotativo, cheque especial e um empréstimo pessoal atende a dois sem atrasar uma parcela.

O que muda se o Banco Central apertar o crédito de risco

O relatório diz que o Banco Central estuda medidas macroprudenciais, regras que miram o sistema como um todo, e não um banco ou um cliente, para as linhas de crédito de maior risco. Em 23 de outubro de 2026 já saíram as Resoluções 601, 602 e 603 do Banco Central (painel de dívidas, autorização prévia para ofertas de crédito a clientes vulneráveis e regras para o crédito no Pix), que passam a valer entre março e julho de 2027. O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, disse em 27 de outubro que pretende “adicionar medidas ainda este ano”, segundo a Agência Brasil.

Para quem está no limite, o crédito de risco tende a ficar mais caro e mais seletivo; para quem está abaixo da linha, pouco muda. O Banco Central não vê risco relevante para a estabilidade do sistema financeiro, e 73% das instituições que ele consultou se dizem muito ou totalmente confiantes nessa estabilidade.

Como usar a régua na sua casa

  1. Some tudo que sai com dia certo para pagar dívida e divida pela renda líquida do mês.
  2. Separe o que compra ativo do que paga consumo.
  3. Se o total passa de 40% e a fatia de consumo é a maior, comece por ela. A conta de quitar antes de investir está em juros do crédito para famílias.
  4. Mantenha a reserva de emergência antes de adiantar parcelas; dívida nova só entra se a soma continuar abaixo dos 40%.

A régua entra todo mês no orçamento da família de alta renda, e a dívida que compra ativo tem lugar na arquitetura patrimonial. O Diagnóstico Patrimonial, sem custo, faz essa separação com os números da sua casa. A decisão que o relatório deixa com você: de que lado dos 40% a sua família quer passar 2027.

Perguntas frequentes

O que é comprometimento de renda?

É a parte da renda mensal que vai para pagar dívidas: os juros e a parte da parcela que abate o saldo devedor. Se uma família ganha R$ 25 mil e paga R$ 10.500 de parcelas, o comprometimento é de 42%. O Banco Central mede isso para o conjunto das famílias (série 29034, em 28,72% em julho de 2026) e também devedor por devedor: nessa medida individual, o primeiro semestre de 2026 teve o nível mais alto dos últimos 21 anos, com 38,5% em junho.

Quanto da renda pode ir para dívida?

O Relatório de Estabilidade Financeira de outubro de 2026 mostra que, em veículos, crédito pessoal sem garantia e cartão com juros, o risco de calote sobe em linha reta quando o comprometimento de renda no momento da contratação passa de 40%. No financiamento da casa e no consignado (empréstimo descontado na folha de pagamento), o risco quase não muda com esse percentual. Acima de 50%, a família entra num dos quatro critérios de endividamento de risco do Banco Central.

O que é endividamento de risco?

É a régua do Banco Central para quem está perto do superendividamento. Entra quem atende a dois ou mais de quatro critérios: atraso acima de 90 dias; mais de 50% da renda mensal comprometida com dívidas; uso ao mesmo tempo de cheque especial, crédito pessoal sem desconto em folha e cartão rotativo (a parte da fatura que fica sem pagar e segue com juros); renda que sobra depois das dívidas abaixo da linha de pobreza. Em junho de 2026, eram 20,3 milhões de pessoas, 17% dos devedores, 75% a mais que em junho de 2021.

Qual a diferença entre comprometimento de renda e endividamento?

Comprometimento de renda é quanto da renda do mês vai para juros e parcelas: 28,72% em julho de 2026, pela série 29034 do Banco Central. Endividamento é a dívida total dividida pela renda acumulada em 12 meses: 49,86% na mesma data (série 29037). O primeiro mede o aperto do mês; o segundo, o tamanho da dívida em relação ao que a família ganha num ano.

O que o Banco Central vai fazer com o crédito?

O relatório de 27 de outubro de 2026 diz que o Banco Central estuda medidas macroprudenciais, regras que miram o sistema como um todo, para as linhas de crédito de maior risco: exigências mais duras aos bancos em certos tipos de crédito, acompanhamento da capacidade de pagamento de quem toma o empréstimo e mais transparência na oferta. Em 23 de outubro já saíram as Resoluções 601, 602 e 603 do Banco Central, que passam a valer em 2027. Para quem está no limite, o crédito de risco tende a ficar mais caro e mais seletivo; para quem está abaixo dos 40%, pouco muda.

Fontes

  1. Relatório de Estabilidade Financeira, v. 25, n. 2 (outubro de 2026) · Banco Central do Brasil, 27/10/2026
  2. Relatório de Estabilidade Financeira de outubro de 2026: anexo estatístico · Banco Central do Brasil, 27/10/2026
  3. Relatório de Estabilidade Financeira (página da publicação) · Banco Central do Brasil, 27/10/2026
  4. Número de superendividados no Brasil cresceu 75% em cinco anos, diz BC · Agência Brasil, 27/10/2026
  5. Banco Central diz que estabilidade financeira não está em risco · Agência Brasil, 27/10/2026
  6. BC reforça regras de proteção ao consumidor nas ofertas de crédito · Agência Brasil, 23/10/2026
  7. Dívidas das famílias com problema de pagamento atingem maior nível desde 2012, diz BC · InfoMoney, 27/10/2026
  8. SGS: séries 29034 (comprometimento de renda das famílias) e 29037 (endividamento das famílias) · Banco Central do Brasil, 28/10/2026

Números e regras conferidos nas fontes acima na data de publicação ou de atualização do artigo. Como escrevemos.