Quanto o imóvel em São Paulo ficou para trás e o que muda para você
O UBS vê em São Paulo o menor risco de bolha entre 23 cidades. Descontada a inflação, o m² vale 22,9% menos do que em 2014. E o banco não espera alta tão cedo.
Menegon Family Office · Carta do DaviCarta do DaviPor Davi MenegonMenegon Family Office
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Em agosto de 2014, o metro quadrado residencial anunciado em São Paulo custava, em média, R$ 8.162. Em setembro de 2026, custa R$ 12.206. Os dois vêm da mesma fonte, o Índice FipeZAP, e a alta parece boa: 49,5% em doze anos.
No mesmo intervalo, o IPCA, a inflação oficial, acumulou 93,9%, incluído o de setembro de 2026, divulgado em 9 de outubro (Banco Central, série 433). O dinheiro perdeu quase metade do valor; o imóvel subiu metade disso. Descontada a inflação, o metro quadrado paulistano vale hoje 22,9% menos do que no pico de agosto de 2014. A conta é da Menegon, com a planilha oficial da Fipe.
Em 22 de setembro de 2026, o banco suíço UBS publicou a 12ª edição do Global Real Estate Bubble Index, que mede o risco de bolha em 23 cidades. Zurique lidera, com 1,69, e Tóquio, com 1,54: as únicas em risco alto (acima de 1,5). São Paulo fecha a lista com −0,24: o menor risco entre as 23, na mesma posição de 2025, segundo o Valor Econômico (23 de setembro de 2026). O UBS chega perto: preço real (descontada a inflação) cerca de 25% abaixo do pico de 2014.
A tese, em uma frase
Das 23 grandes cidades que o UBS mede, São Paulo é a que mais ficou para trás, e por isso é a que tem mais espaço para o preço subir.
Espaço não é prazo: o próprio UBS não espera alta forte em São Paulo tão cedo. A leitura da Menegon é de valor relativo: o que custa pouco em relação ao aluguel tem mais margem para subir do que o que custa muito. Quando, e se, isso acontece é outra pergunta.
O que o UBS mediu
O índice mede quanto o preço se afastou do que o sustenta, em cinco medidas: o preço em anos de renda e em anos de aluguel, a variação do crédito imobiliário e da construção em relação ao PIB, e o preço da cidade comparado ao do país. Abaixo de 0,5, o risco é baixo. Ele mede a chance de uma queda forte, não a data.
O aluguel, diz o relatório, subiu quase 30% desde 2022; ser dono custa quase o mesmo que alugar.
| Cidade | Índice UBS 2026 | Anos de aluguel para pagar o imóvel |
|---|---|---|
| Zurique | 1,69 | 46 |
| Genebra | 1,12 | 40 |
| São Paulo | −0,24 | cerca de 15 (leitura do gráfico) |
Fonte: UBS, p. 9. O relatório imprime os anos de Zurique e Genebra; o de São Paulo, e os 7 anos de renda abaixo, são leitura do gráfico pelo Seu Dinheiro (25 de setembro de 2026).
Na comparação com a renda, São Paulo fica no meio do ranking: um trabalhador qualificado de serviços precisa de cerca de 7 anos de renda para comprar 60 m² perto do centro. Para o UBS, o salário paulistano não sustenta a compra. Barato em relação ao aluguel não é barato para o bolso.
Preço de imóvel é preço de terra
Em 2017, Katharina Knoll, Moritz Schularick e Thomas Steger publicaram na American Economic Review o histórico de preços de imóveis de 14 países ricos, de 1870 a 2012. Os preços reais ficaram quase parados até meados do século XX e dispararam depois da Segunda Guerra. Cerca de 80% dessa alta veio do preço da terra, não do custo de construir.
O Brasil não está na amostra. A lição vale: no longo prazo, imóvel é terra urbana escassa, e terra anda em ciclos longos, com décadas de estagnação no meio. Na escala desses 140 anos, doze anos abaixo do pico é ritmo normal.
Em 1989, Karl Case e Robert Shiller, também na American Economic Review, estudaram quatro cidades americanas entre 1970 e 1986 e mostraram que o preço das casas tem inércia: se o preço real sobe num ano, tende a subir de novo no ano seguinte, entre um quarto e metade do que subiu. Ao contrário da bolsa, o imóvel não cai de uma vez.
A inércia vale nos dois sentidos, e São Paulo anda de lado: desde dezembro de 2021, o preço subiu cerca de 25%, e a inflação, outro tanto. Pela lógica de Case e Shiller, a inércia de hoje não aponta alta: aponta mais um ano como o último.
O contraponto mais forte
O mesmo relatório que põe São Paulo em último dá três motivos para o preço não subir tão cedo.
O primeiro é a oferta. A pesquisa de julho de 2026 do Secovi-SP, o sindicato da habitação de São Paulo, divulgada em 15 de setembro, contou 90,6 mil unidades novas à venda na capital, 42% mais do que um ano antes, quase tudo na planta ou em obras. No médio e alto padrão, as vendas caíram 18% em 12 meses, e o que está à venda leva cerca de 13 meses para ser vendido. Quem precisa vender tem pouca margem para subir o preço.
O segundo é o juro. A taxa média do financiamento imobiliário a pessoas físicas ficou em 11,28% ao ano em agosto de 2026 (Banco Central, série 20774). A Selic, a taxa básica de juros, está em 13,75% ao ano desde 17 de setembro. O aluguel rende 6,42% do preço por ano em São Paulo, pelo FipeZAP de agosto. Enquanto um título do Tesouro pagar o dobro do aluguel e o financiamento custar quase o dobro, o comprador que faz conta espera.
O terceiro é o próprio tempo: quase cinco anos de lado, doze abaixo do pico. O risco desta tese não é perder dinheiro de uma vez; é deixá-lo parado por anos num ativo que paga 6,42% enquanto o juro paga mais, esperando uma alta que pode não vir.
Construir ficou mais caro do que comprar pronto
De setembro de 2014 a setembro de 2026, construir ficou 117,0% mais caro pelo INCC-DI, o índice de custo da construção da FGV (Banco Central, série 192); o metro quadrado paulistano subiu 49,5%. Desde dezembro de 2021, o custo subiu 35,1% e o preço, 25,7%; em 12 meses, o custo subiu 6,66% (FGV, 7 de outubro de 2026). O imóvel usado e as unidades já lançadas, orçadas no custo de ontem, seguram o preço; o próximo lançamento sobe com o custo de hoje. Quando esse estoque encolher, a diferença aparece no preço do novo.
O INCC mede custo, não valor: ninguém paga mais por um apartamento porque saiu caro. As 90,6 mil unidades à venda não encolhem tão cedo, e custo alto também pode virar menos lançamentos, a preços que o comprador não paga.
A conta, com um imóvel de exemplo
Um apartamento de 60 m² ao preço médio da cidade: 60 × R$ 12.206 = R$ 732.360. Exemplo, não oferta.
- Aluguel bruto, a 6,42% ao ano: R$ 47.017 por ano, ou R$ 3.918 por mês, antes de meses sem inquilino, condomínio nesses meses, manutenção e imposto.
- O mesmo dinheiro em renda fixa atrelada ao CDI, a taxa de referência do setor (13,65% ao ano em 8 de outubro de 2026, pelo Banco Central; cerca de 1,07% ao mês): R$ 7.850 por mês brutos, ou R$ 6.670 depois dos 15% de imposto de renda que valem para aplicações acima de dois anos.
- A diferença, bruto contra bruto, é de R$ 3.930 por mês, R$ 47 mil por ano, 6,4% do preço. Com imposto só do lado do juro, cai para R$ 2.750 por mês, 4,5% do preço; como o aluguel também paga imposto e tem meses vazios, o número certo fica entre os dois. Para o imóvel empatar com o juro, o preço precisaria subir entre 4,5% e 6,4% ao ano. Ou o juro precisaria cair.
- Financiando 70% do preço (R$ 512.652) em 30 anos a 11,28% ao ano pelo SAC (a parcela começa alta e cai todo mês), a primeira parcela é de cerca de R$ 6.010: R$ 1.424 que abatem a dívida e R$ 4.586 de juros, sem seguros nem taxa de administração. O aluguel do mesmo imóvel paga, no máximo, 65% dela.
Agora, o tamanho do espaço. Para voltar ao pico real de 2014, o preço precisa subir 29,7% acima da inflação (quem cai 22,9% precisa subir 29,7% para voltar ao início). Se isso levar dez anos, são 2,6% ao ano acima do IPCA. Em cinco anos, 5,3%. Nenhum dos dois está garantido. Para o UBS, aos preços de hoje, o imóvel na maioria das cidades tende a repor a inflação no médio prazo, não no curto.
Pela régua ×200 (renda mensal vezes 200), em valores nominais, sem descontar a inflação: quem quer R$ 20 mil por mês precisa de R$ 4 milhões trabalhando. A 6,42% ao ano, R$ 4 milhões em imóveis pagam R$ 21.400 brutos por mês, pouco acima dos R$ 20 mil da régua (0,5% ao mês), antes de imposto e meses vazios.
O que muda no seu patrimônio
A decisão não é “comprar ou não comprar imóvel em São Paulo”. É de método.
Primeiro, o tamanho. Quem tem ou quer imóvel na cidade decide quanto do patrimônio cabe nele pela arquitetura patrimonial inteira, não pela manchete do UBS: a fatia que o orçamento sustenta num mês sem inquilino e sem alta.
Segundo, o gatilho. Anote três números e revise-os a cada trimestre: o juro do financiamento (11,28% hoje), o retorno do aluguel (6,42%) e a valorização anual que você consegue defender com conta, não com esperança. No dia em que o primeiro ficar abaixo da soma dos outros dois, a tese desta carta deixa de ser valor relativo e vira uma conta que fecha.
A Conta da Liberdade faz a régua ×200 com seus números e mostra o peso desse imóvel no total.
Davi Menegon
P.S. Em São Paulo, a pergunta não é quanto falta cair; é quanto tempo o barato fica barato.
Fontes
- UBS Global Real Estate Bubble Index 2026 (relatório completo, 12ª edição) · UBS Global Wealth Management, Chief Investment Office, 22/09/2026
- Índice FipeZAP de Venda Residencial: informe de setembro de 2026 · Fipe e Grupo OLX, 10/2026
- Índice FipeZAP de Locação Residencial: informe de agosto de 2026 · Fipe e Grupo OLX, 09/2026
- Índice FipeZAP: séries históricas (planilha oficial, aba São Paulo) · Fipe, 09/10/2026
- SGS 433: IPCA mensal (setembro de 2014 a setembro de 2026) · Banco Central do Brasil / IBGE, 09/10/2026
- SGS 20774: taxa média de juros, recursos direcionados, pessoas físicas, financiamento imobiliário total (agosto de 2026) · Banco Central do Brasil, 09/10/2026
- Comunicado da 281ª reunião do Copom: Selic a 13,75% a.a. · Banco Central do Brasil, 16/09/2026
- Pesquisa Mensal do Mercado Imobiliário, julho de 2026 · Secovi-SP, 15/09/2026
- Vendas de imóveis sobem 67% e lançamentos avançam 45,9% em julho, mostra Secovi-SP · Agência Estado (O Povo), 15/09/2026
- Quem torce pelo estouro de uma bolha para conseguir comprar imóvel em São Paulo pode esperar sentado, mostra estudo do UBS · Seu Dinheiro, 25/09/2026
- São Paulo tem menor risco de bolha imobiliária entre 23 grandes cidades, diz UBS · Valor Econômico (reproduzido pela Abecip), 23/09/2026
- SGS 192: INCC-DI (FGV), variação mensal, set/2014 a set/2026 · Banco Central do Brasil / FGV IBRE, 09/10/2026
- IGP-DI de setembro de 2026 sobe 1,50%; INCC-DI 0,22% no mês e 6,66% em 12 meses · FGV IBRE, 07/10/2026
- SGS 4389: taxa DI (CDI) anualizada, base 252 · Banco Central do Brasil / B3, 08/10/2026
- Katharina Knoll, Moritz Schularick e Thomas Steger, No Price Like Home: Global House Prices, 1870–2012, American Economic Review, v. 107, n. 2, p. 331–353 · American Economic Association, 02/2017
- Karl E. Case e Robert J. Shiller, The Efficiency of the Market for Single-Family Homes, American Economic Review, v. 79, n. 1, p. 125–137 (NBER Working Paper 2506) · National Bureau of Economic Research, 03/1989
Números e regras conferidos nas fontes acima na data de publicação ou de atualização do artigo. Como escrevemos.