Com o fim das bets, bancos devolvem o saldo entre 9 e 14 de outubro
R$ 1,325 bilhão volta a 26,5 milhões de apostadores. Veja o calendário da devolução e, no cálculo da Menegon, quanto a aposta tirava do patrimônio.
Menegon Family Office · MercadoMercadoPor Davi MenegonMenegon Family Office
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As bets, os sites de apostas on-line, saíram do ar no Brasil em 6 de outubro de 2026. Quem tinha saldo numa casa de apostas não precisa pedir nada. Pelo cronograma do Ministério da Justiça e Segurança Pública, os bancos devolvem o dinheiro entre 9 e 14 de outubro, de preferência na conta de onde ele saiu.
São R$ 1,325 bilhão parados nas contas de cerca de 26,5 milhões de apostadores (Ministério da Justiça, 06/10/2026), uma média de R$ 50 por pessoa. Para o patrimônio, a pergunta maior é outra: quanto a aposta tirava todo mês e para onde vai esse dinheiro agora.
O que a medida provisória proibiu
Medida provisória (MP) é um ato do Poder Executivo com força de lei. Vale desde a publicação, mas precisa ser aprovada pela Câmara e pelo Senado para virar lei. A MP nº 1.394 saiu no Diário Oficial em 25 de setembro de 2026, em edição extra.
Ela proíbe explorar, oferecer, intermediar e anunciar apostas de quota fixa em eventos esportivos reais e em jogos on-line. Quota fixa quer dizer que o prêmio fica definido no momento da aposta. A regra vale para as casas autorizadas pela União, pelos estados e pelo Distrito Federal, e para as do exterior que atendem quem está no Brasil.
Os prazos previstos na MP (sumário da Consultoria Legislativa do Senado, 29/09/2026):
- Desde a publicação: nenhum depósito novo nas contas das operadoras.
- Dez dias depois: sites e aplicativos fora do ar. Apostas em aberto ficam sem efeito, com devolução integral e pagamento dos prêmios já apurados.
- Dois dias depois de os sites saírem do ar: as operadoras garantem os recursos e mandam aos bancos a lista de quem tem direito, sob multa diária de R$ 200 mil.
- Até sete dias depois de receberem a lista: os bancos devolvem o dinheiro.
- 30 dias após a publicação: as licenças acabam, sem devolução do valor pago por elas e sem indenização.
Como e quando o seu saldo volta
O calendário do Ministério da Justiça (nota de 06/10/2026):
| Data | O que acontece |
|---|---|
| 05/10 | Último dia para sacar por conta própria |
| 06/10 | Sites fora do ar |
| Até 07/10 | Empresas enviam os saldos aos bancos |
| 9 a 14/10 | Bancos devolvem o dinheiro |
| A partir de 14/10 | O que não pôde ser devolvido vai para a Caixa |
Conta de origem é aquela de onde saiu o Pix do depósito. Se ela foi encerrada, o valor vai para uma conta específica na Caixa.
Muitas contas guardam só centavos: 86,2 milhões delas têm saldo entre R$ 0,01 e R$ 0,99, que somam R$ 15,5 milhões. O número de contas supera o de apostadores porque uma pessoa pode ter conta em mais de uma casa.
O que a aposta custava ao seu patrimônio
A casa de apostas fica com uma fatia de tudo o que é apostado, chamada retenção. O resto volta como prêmio, dividido de forma desigual.
O Banco Central estimou essa retenção em cerca de 15% (Nota Técnica 513/2024, de 23/09/2024), número que ele mesmo chama de preliminar e que pode estar subestimado.
Segundo o mesmo estudo, cerca de 24 milhões de pessoas fizeram ao menos um Pix para bets. Esses Pix somaram de R$ 18 bilhões a R$ 21 bilhões por mês em 2024. O valor médio enviado por mês subia com a idade: perto de R$ 100 entre os mais jovens e acima de R$ 3.000 entre os mais velhos (agosto de 2024).
A conta da Menegon Family Office. Tome como exemplo quem aposta R$ 3.000 por mês, a faixa dos mais velhos no estudo. Com retenção média de 15%:
- perda média esperada: R$ 3.000 × 15% = R$ 450 por mês;
- em um ano: R$ 450 × 12 = R$ 5.400.
Pela regra ×200, cada real de renda mensal pede R$ 200 de patrimônio. Uma renda de R$ 450 por mês exige R$ 450 × 200 = R$ 90 mil investidos. Quem perde R$ 450 por mês na aposta abre mão da renda desse patrimônio.
Pela mesma conta, quem aposta R$ 100 por mês perde em média R$ 180 por ano; quem aposta R$ 1.000, R$ 1.800. É média: num mês de sorte o apostador ganha, mas, somados os meses, a retenção trabalha contra ele.
Quanto a aposta tira por ano, em média
Perda média em um ano, conforme o valor apostado por mês
| Aposta de R$ 100 por mês | R$ 180 |
| Aposta de R$ 1.000 por mês | R$ 1.800 |
| Aposta de R$ 3.000 por mês | R$ 5.400 |
O mesmo dinheiro, aplicado por dez anos
Suponha que os R$ 3.000 por mês fossem aplicados por dez anos a 0,8% ao mês, cerca de 10% ao ano. A taxa é uma premissa de exemplo, não uma promessa: aplicações rendem mais ou menos que isso, e as de retorno maior oscilam e podem dar prejuízo.
Pela fórmula de juros compostos:
Valor final = R$ 3.000 × [(1,008¹²⁰ − 1) ÷ 0,008] ≈ R$ 600,7 mil
Foram R$ 360 mil depositados e cerca de R$ 240,7 mil de juros, antes do Imposto de Renda. Pela regra ×200, R$ 600,7 mil pagam uma renda de perto de R$ 3 mil por mês, o mesmo valor que ia para a aposta.
A comparação supõe que todo o valor apostado vire aplicação. Como parte do que se aposta volta como prêmio, o custo médio da aposta é menor: a perda de R$ 450 por mês. Só essa perda, aplicada nas mesmas condições, somaria cerca de R$ 90,1 mil em dez anos.
O que a pesquisa mostra sobre apostas e poupança
Uma pesquisa dos Estados Unidos analisou transações de famílias para comparar estados que legalizaram a aposta esportiva on-line com os que não legalizaram (Scott R. Baker e coautores, NBER, 2024; publicado no Journal of Financial Economics em 2026).
O que encontraram, na versão de novembro de 2024:
- A aposta toma o lugar da poupança. O dinheiro arriscado sai de investimentos que, na média, rendem.
- O investimento encolhe. Depois da legalização, o investimento líquido das famílias que passaram a apostar (o que aplicam em corretoras menos o que resgatam) caiu cerca de 14% em relação ao das outras.
- Quase dólar por dólar. Cada US$ 1 depositado em aplicativos de aposta reduziu o investimento líquido em pouco menos de US$ 1.
- Quem tem menos folga sofre mais. Os efeitos se concentram nas famílias com o orçamento mais apertado: a dívida no cartão sobe, o crédito disponível cai e a conta fica no negativo mais vezes.
O limite: o estudo é dos Estados Unidos, com outras regras, e não mede o Brasil. Mas aponta na mesma direção da conta acima: o que vai para a aposta deixa de ir para o patrimônio.
O que decidir agora
Para quem apostava, outubro libera dois valores: o saldo que volta e a parte do orçamento que ia para a aposta. Os dois precisam de destino por escrito, ou somem nos gastos do mês.
- Confira o extrato até 14/10. Se o saldo não entrar, veja nos canais oficiais como pedir o valor na Caixa.
- Some o que foi para apostas nos últimos 12 meses e divida por 12. Os Pix enviados aparecem no extrato.
- Dê a esse valor um lugar fixo no orçamento familiar: reserva de emergência, quitação de dívida cara ou aporte mensal.
- Meça o efeito no seu plano. A Conta da Liberdade mostra quanto falta para a renda que você quer e quanto esse aporte encurta o caminho.
Perguntas frequentes
Como recebo o saldo que ficou na bet?
Não é preciso pedir nada. As operadoras mandam aos bancos a lista de quem tem saldo, e os bancos devolvem o dinheiro de preferência na conta de onde saiu o depósito. É o que prevê a Medida Provisória nº 1.394, de 25/09/2026.
Até quando os bancos devolvem o dinheiro das bets?
Pelo cronograma do Ministério da Justiça e Segurança Pública, os bancos devolvem os saldos entre 9 e 14 de outubro de 2026. O valor que não puder ser devolvido na conta de origem vai, a partir de 14/10, para uma conta específica na Caixa.
E se a conta de origem estiver encerrada?
Quando não dá para devolver na conta de origem, a Medida Provisória nº 1.394 manda o dinheiro para uma conta específica na Caixa Econômica Federal. Acompanhe os canais oficiais do governo e da Caixa para saber como pedir o valor.
O que acontece com as apostas que estavam em aberto?
Ficam sem efeito. O apostador tem direito à devolução integral do valor apostado e aos prêmios que já tinham sido apurados, conforme a Medida Provisória nº 1.394.
Quanto a aposta custa ao patrimônio?
O Banco Central estimou que as casas de apostas ficam, em média, com cerca de 15% do que é apostado. Quem aposta R$ 3.000 por mês perde em média R$ 450 por mês, ou R$ 5.400 por ano. Pela regra ×200, uma renda de R$ 450 por mês exige R$ 90 mil de patrimônio.
Fontes
- Medida Provisória nº 1.394, de 25 de setembro de 2026 (DOU, edição extra) · Planalto, 25/09/2026
- Sumário executivo da MPV 1.394/2026 · Senado Federal, Consultoria Legislativa, 29/09/2026
- Bets fora do ar: plataformas cumprem determinação e encerram apostas no Brasil · Ministério da Justiça e Segurança Pública, 06/10/2026
- Nota Técnica 513/2024-BCB/SECRE: análise técnica sobre o mercado de apostas online no Brasil e o perfil dos apostadores · Banco Central do Brasil (cópia publicada pelo Poder360), 23/09/2024
- Gambling Away Stability: Sports Betting's Impact on Vulnerable Households (NBER Working Paper 33108; Journal of Financial Economics, vol. 183, 2026) · National Bureau of Economic Research, novembro de 2024
Números e regras conferidos nas fontes acima na data de publicação ou de atualização do artigo. Como escrevemos.