Boletim Focus: projeção de inflação 2026 sobe a 4,99%. E o juro real?
Primeiro Focus após o IPCA-15 de 0,70%: R$ 1 milhão a 100% do CDI rende, líquido, 6,64% acima da inflação em 12 meses, e a margem encolhe até 2028.
Menegon Family Office · MercadoMercadoPor Davi MenegonMenegon Family Office
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O Boletim Focus divulgado nesta segunda-feira, 28 de setembro de 2026, subiu a projeção de inflação para 2026 de 4,92% para 4,99%. Entre as respostas dos últimos cinco dias úteis, a mediana já está em 5,08%. É o primeiro Focus depois do IPCA-15 de setembro, que veio em 0,70%. A Selic projetada para o fim do ano seguiu em 13,50%.
Para quem tem patrimônio em renda fixa, o número que importa é o juro real, quanto o dinheiro rende acima da inflação. Com R$ 1 milhão a 100% do CDI, depois do IR de 15%, o juro real esperado para os próximos 12 meses é de 6,64%: cerca de R$ 66,4 mil em poder de compra de hoje. No caminho que o Focus desenha até 2028, esse ganho cai para perto de 4,9%, porque a Selic desce mais depressa que a inflação.
O que o Focus mudou nesta semana
O Focus é a pesquisa semanal do Banco Central com economistas do mercado. O relatório de hoje reúne projeções coletadas até 25/09 (medianas):
| Indicador | Há 1 semana | Hoje |
|---|---|---|
| IPCA 2026 | 4,92% | 4,99% |
| IPCA 2027 | 4,30% | 4,31% |
| IPCA de setembro | 0,52% | 0,56% |
| Inflação 12 meses à frente | 4,62% | 4,65% |
| Selic fim de 2026 | 13,50% | 13,50% |
Para os anos seguintes, a mediana aponta Selic de 12% no fim de 2027, 10,50% em 2028 e 10% em 2029. O IPCA esperado é de 3,80% em 2028 e 3,50% em 2029. O PIB de 2026 recuou de 1,88% para 1,86%.
Um detalhe: a mediana para a Selic depois da reunião de novembro caiu de 13,63% para 13,50%. Hoje ela está em 13,75% ao ano, desde 17/09 (Copom de setembro). Ou seja, o mercado espera corte mesmo com a inflação projetada acima do teto de 4,5% da meta, que é de 3% com tolerância de 1,5 ponto (Conselho Monetário Nacional).
Por que o IPCA-15 de setembro pesou
A prévia da inflação subiu 0,70% em setembro, depois de −0,40% em agosto (IBGE, 25/09/2026). Em 12 meses, foi de 4,24% para 4,47%. A pesquisa da Reuters citada pelo InfoMoney esperava 0,53%.
A maior pressão veio de Habitação, com alta de 2,07%. A energia elétrica residencial subiu 7,42%, depois de cair 6,25% na prévia de agosto (IBGE, SIDRA). É a saída do Bônus de Itaipu, creditado nas contas de agosto, como antecipamos na semana passada. Mas não foi só energia: despesas pessoais subiram 0,96% e transportes, 0,60%.
Juro real: a conta que importa
A taxa nominal é a que aparece no extrato. O juro real desconta a inflação do período. A conta exata divide, não subtrai: (1 + taxa nominal) ÷ (1 + inflação) − 1.
Premissas: R$ 1 milhão a 100% do CDI, que estava em 13,65% ao ano em 24/09/2026 (Banco Central); taxa constante por 12 meses; IR de 15%, a alíquota de aplicações com mais de dois anos (em prazo menor, o imposto é maior e o ganho, menor); sem custos. A inflação usada é a esperada pelo Focus para os próximos 12 meses, 4,65%.
- Rendimento líquido: 13,65% × 0,85 = 11,6025%, ou R$ 116.025.
- Juro real: 1,116025 ÷ 1,0465 − 1 = 6,64%.
- Em reais: cerca de R$ 66,4 mil de ganho em poder de compra de hoje.
A subtração simples (11,60% − 4,65%) daria 6,95% e exagera o ganho. Antes do IR, o juro real seria de 8,60%. Percentuais arredondados em duas casas; reais, na centena.
O caminho do Focus: juro real menor em 2027 e 2028
O Focus projeta a Selic caindo 3 pontos entre o fim de 2026 e o fim de 2028 (de 13,50% para 10,50%). A inflação esperada cai 1,19 ponto no mesmo período (de 4,99% para 3,80%). Juro caindo mais que inflação é juro real menor.
Premissas de cada linha, com o mesmo IR de 15%:
- 2027: CDI médio de 12,75%, o ponto médio entre 13,50% e 12%, e IPCA de 4,31%. No cenário conservador, CDI de 12% o ano todo.
- 2028: CDI de 10,50% o ano todo, a taxa do fim do ano (conservador), e IPCA de 3,80%.
| Cenário | Juro real líquido | Sobre R$ 1 milhão |
|---|---|---|
| Próximos 12 meses | 6,64% | R$ 66,4 mil |
| 2027 (CDI 12,75%) | 6,26% | R$ 62,6 mil |
| 2027 (CDI 12%) | 5,65% | R$ 56,5 mil |
| 2028 (CDI 10,50%) | 4,94% | R$ 49,4 mil |
Não é previsão nossa: é a aritmética do cenário do mercado. O CDI não é garantido e acompanha a Selic, que o Copom decide a cada reunião. A projeção pode errar para os dois lados.
Meio ponto de inflação a mais custa R$ 5 mil por ano
O IPCA-15 veio 0,17 ponto acima do esperado em um único mês. Surpresas assim mexem na renda real.
Com o mesmo rendimento líquido de 11,6025%, uma inflação de 4,49% deixa juro real de 6,81% (R$ 68,1 mil). Com 4,99%, cai para 6,30% (R$ 63,0 mil). A diferença de meio ponto custa cerca de R$ 5,1 mil por ano a cada R$ 1 milhão.
Meio ponto a mais de inflação custa R$ 5,1 mil por ano
Como cada família de renda fixa reage à inflação acima do esperado
- Pós-fixada (CDI): rende a taxa do dia. Se o Banco Central segura os juros por mais tempo para conter a inflação, o CDI acompanha. Se corta antes de a inflação ceder, o juro real encolhe, como mostra a tabela acima.
- Prefixada: a taxa é fixada na compra. Cada ponto de inflação acima do previsto tira perto de um ponto do ganho real. Antes do vencimento, o preço cai se os juros de mercado subirem.
- Atrelada ao IPCA: paga a inflação medida mais uma taxa definida na compra, o que protege o poder de compra no vencimento. Antes dele, o preço oscila com os juros de mercado.
Nenhuma das três vence em qualquer cenário. A proporção de cada uma sai de quando você vai usar o dinheiro, não do Focus da semana. É parte da arquitetura patrimonial e do papel do mercado financeiro dentro dela.
O que decidir
O Focus desta segunda não pede mudança de rota. Pede três respostas:
- Você acompanha a taxa nominal ou o juro real da sua renda fixa? O que paga a vida é o segundo.
- Quanto da sua renda depende do CDI perto de 13,65%? No cenário do Focus, o mesmo R$ 1 milhão entrega cerca de R$ 17 mil a menos de ganho real em 2028 do que nos próximos 12 meses.
- Quanto do patrimônio aguenta uma inflação que surpreende para cima mais uma vez? A resposta está na mistura entre pós, pré e IPCA, não em um título.
A Conta da Liberdade mostra, com os seus números, quanto do seu custo de vida a sua renda passiva já paga hoje.
Perguntas frequentes
O que é o Boletim Focus?
É a pesquisa semanal do Banco Central com economistas de bancos, gestoras e consultorias sobre inflação, Selic, câmbio e PIB. Sai às segundas-feiras e publica a mediana das projeções. No Focus de 28/09/2026, a mediana do IPCA de 2026 subiu de 4,92% para 4,99%, e a da Selic no fim do ano ficou em 13,50%.
O que é juro real e como calcular?
Juro real é quanto um investimento rende acima da inflação. A conta exata divide em vez de subtrair: (1 + taxa nominal) ÷ (1 + inflação) − 1. Com rendimento líquido de 11,6025% e inflação de 4,65%, o juro real é 1,116025 ÷ 1,0465 − 1 = 6,64%. A subtração simples daria 6,95% e exagera o ganho quando as taxas são altas.
Quanto rende R$ 1 milhão no CDI acima da inflação?
Com o CDI a 13,65% ao ano (24/09/2026) e IR de 15% (alíquota de aplicações com mais de dois anos), R$ 1 milhão a 100% do CDI rende R$ 116.025 líquidos em 12 meses, se a taxa ficar constante. Descontada a inflação de 4,65% esperada pelo Focus para os próximos 12 meses, o ganho real é de 6,64%, cerca de R$ 66,4 mil em poder de compra de hoje. O CDI não é garantido: acompanha a Selic, que o mercado projeta em queda até 2028.
Qual renda fixa protege da inflação?
A renda fixa atrelada ao IPCA paga a inflação medida mais uma taxa definida na compra, o que protege o poder de compra no vencimento, mas o preço oscila antes dele. A prefixada perde ganho real se a inflação vier acima do esperado. A pós-fixada acompanha o CDI e depende do caminho da Selic. Nenhuma das três é melhor em qualquer cenário: a escolha sai do prazo em que o dinheiro será usado.
Fontes
- Focus: Relatório de Mercado (coleta até 25/09/2026) · Banco Central do Brasil, 28/09/2026
- IPCA-15 é de 0,70% em setembro · IBGE (Agência de Notícias), 25/09/2026
- SIDRA: tabela 7062 (IPCA-15 por grupos e subitem energia elétrica residencial) · IBGE, 25/09/2026
- SGS: série 4389 (CDI anualizado, base 252), consulta pelo código · Banco Central do Brasil, 24/09/2026
- Ata da 281ª reunião do Copom (15 e 16 de setembro de 2026) · Banco Central do Brasil, 22/09/2026
- IPCA-15: prévia da inflação sobe 0,70% em setembro, acima do esperado pelo mercado · InfoMoney, 25/09/2026
- Decreto nº 12.079/2024 (meta contínua de inflação) · Planalto, 26/06/2024
Números e regras conferidos nas fontes acima na data de publicação ou de atualização do artigo. Como escrevemos.