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Investimentos

Juros da dívida pública: quem recebe e como emprestar ao governo

Os juros devidos pelo setor público somaram R$ 1,18 trilhão em 12 meses. Veja para quem vão, como emprestar ao Tesouro e se a taxa cobre a régua ×200.

Vista aérea de edifícios e ruas em uma paisagem urbana.Menegon Family Office · InvestimentosInvestimentos
Fotografia ilustrativa · William Ducret / Unsplash

Por Menegon Family Office

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Nos 12 meses até agosto de 2026, os juros devidos pelo setor público brasileiro somaram R$ 1,18 trilhão, ou 8,86% do PIB, segundo o Banco Central (nota de 30 de setembro de 2026). É quase R$ 9 de cada R$ 100 que o país produziu no período. Um ano antes, a conta era de R$ 946,5 bilhões, 7,61% do PIB. Esse custo tem destinatário: em sua maior parte, quem financia a dívida pública comprando títulos do governo.

Os juros do setor público somaram R$ 1,18 trilhão em um ano

R$ 1,18 trilhãoem juros nos 12 meses até agosto de 2026
8,86% do PIBPIB é o que o país produziu: quase R$ 9 de cada R$ 100
7,61% do PIBum ano antes: R$ 946,5 bilhões
Juros de todo o setor público: governo federal, Banco Central, estados, municípios e estatais. Valores sem descontar a inflação. Fonte: Banco Central, nota de 30/09/2026.

Há quem descreva esse fluxo como transferência de renda: renda que sai do setor público e chega aos credores da dívida. Nas contas nacionais, porém, juro não é transferência. É renda de propriedade, a remuneração de um empréstimo, com contrapartida no dinheiro que o credor entregou.

Qualquer pessoa pode ser credora do governo: direto, pelo Tesouro Direto, ou por intermédio de fundos, previdência e bancos. Para o seu patrimônio, a pergunta é outra: quanto desse juro sobra acima da inflação, e se isso basta para viver de renda.

Quanto custam os juros da dívida por ano

O número do Banco Central são os juros nominais apropriados por competência: o custo de juros do período, pago em dinheiro ou somado à dívida. Por competência quer dizer que o juro é contado enquanto corre, mesmo que o título só pague no vencimento. Entram governo federal, Banco Central, estados, municípios e estatais.

A conta inclui o resultado das operações de swap cambial do Banco Central, contratos em que ele oferece ao mercado proteção contra a variação do dólar. Em agosto de 2026, esse resultado foi uma perda de R$ 9,3 bilhões.

Ano Juros (R$ bi) % do PIB
2015 501,8 8,37%
2016 407,0 6,49%
2017 400,8 6,09%
2018 379,2 5,41%
2019 367,3 4,97%
2020 312,4 4,11%
2021 448,4 4,98%
2022 586,4 5,82%
2023 718,3 6,56%
2024 950,4 8,07%
2025 1.007,6 7,91%
12 meses até ago/26 1.182,2 8,86%

Valores nominais, sem correção pela inflação (Banco Central, séries 4616 e 5760 do SGS, consultadas em 1º de outubro de 2026). O percentual do PIB é a medida que permite comparar anos.

Por que a conta sobe e desce: Selic, déficit e rolagem

Selic. É a taxa básica de juros, definida pelo Copom, o comitê de política monetária do Banco Central: 13,75% ao ano desde 17 de setembro de 2026. Ela pesa direto na conta porque 52,74% da Dívida Pública Federal paga taxa flutuante, quase toda em títulos que seguem a Selic (Tesouro Nacional, agosto de 2026). Quando a Selic muda, o custo dessa parte muda junto, dia a dia.

Déficit. O resultado nominal soma duas contas: o primário (receitas menos despesas, sem os juros) e os juros. Nos 12 meses até agosto, o primário teve déficit de 0,62% do PIB; somado aos juros de 8,86%, o resultado nominal foi um déficit de 9,48% do PIB (Banco Central). Quando não há superávit primário, os juros do período são cobertos com aumento da dívida.

Rolagem. É a troca dos títulos que vencem por títulos novos, que pagam a taxa do dia da troca. Em agosto, 16,39% da dívida federal vencia nos 12 meses seguintes, e o custo médio da dívida interna, acumulado em 12 meses, foi de 13,06% ao ano (Tesouro Nacional).

Para quem vão os juros: os donos dos títulos

A Dívida Pública Federal somava R$ 9,29 trilhões em agosto de 2026. Desse total, R$ 8,94 trilhões são a DPMFi, a dívida pública mobiliária federal interna: os títulos em reais que o Tesouro vende no mercado brasileiro. O Relatório Mensal da Dívida (Tesouro Nacional, 28 de setembro de 2026) mostra quem os tem:

Detentor R$ bilhões Fatia
Instituições financeiras 2.792 31,22%
Previdência 2.024 22,63%
Fundos de investimento 2.015 22,52%
Não residentes 886 9,91%
Outros 426 4,76%
Seguradoras 299 3,34%
Tesouro Direto 272 3,04%
Governo 231 2,58%

Por trás de cada linha há gente. Os bancos compram títulos com recursos próprios e com o que captam de clientes. O fundo pertence aos cotistas. A previdência reúne planos abertos, fundos de pensão e os regimes próprios de servidores públicos. “Governo” são fundos administrados pela União, como FAT e FGTS. Uma parte desse juro chega às famílias por intermediários, e cada intermediário fica com a sua fatia.

Como a pessoa física empresta ao governo

Direto: o Tesouro Direto

É o programa do Tesouro Nacional que vende títulos públicos a pessoas físicas pela internet. Em agosto de 2026, tinha 36,4 milhões de cadastrados, 3,83 milhões de investidores com saldo e R$ 272,0 bilhões aplicados (Balanço do Tesouro Direto, 25 de setembro de 2026). Desde novembro de 2024, a compra mínima é de 0,01 título, ou 1% do preço: pelos preços de 30 de setembro de 2026, de cerca de R$ 2 a cerca de R$ 200, conforme o título.

As categorias:

  • Tesouro Selic: acompanha a Selic, e o preço quase não oscila. O Tesouro Reserva, lançado em 11 de maio de 2026, também rende pela Selic, aceita a partir de R$ 1 e tem preço que não oscila com o mercado. No lançamento, era oferecido por um único banco parceiro.
  • Tesouro Prefixado, com ou sem juros semestrais: a taxa fica travada na compra.
  • Tesouro IPCA+, com ou sem juros semestrais: paga a inflação medida pelo IPCA, o índice oficial do IBGE, mais uma taxa real definida na compra. No mercado, o título com juros semestrais é a NTN-B (Nota do Tesouro Nacional série B), e o sem juros, a NTN-B Principal.
  • Tesouro Renda+ e Tesouro Educa+: também pagam IPCA mais uma taxa, mas devolvem o dinheiro em parcelas mensais a partir da data escolhida: 240 no Renda+ (20 anos) e 60 no Educa+ (5 anos).

Quem garante é o Tesouro Nacional; o FGC, o Fundo Garantidor de Créditos, não cobre títulos públicos. A B3 cobra custódia de 0,20% ao ano sobre o valor dos títulos. No Tesouro Selic, não há cobrança até R$ 10 mil por CPF, e Renda+ e Educa+ têm regras próprias.

Indireto: fundos, previdência e bancos

Quem tem fundo de renda fixa, plano de previdência ou CDB provavelmente já empresta ao governo, por tabela. A diferença está no caminho: cada camada cobra a sua taxa, e o juro que chega a você é o que sobra.

Antes de aplicar, pergunte o custo total por ano e quanto ganha quem indicou o produto. No modelo de comissão, quem vende ganha pelo produto que coloca, não pelo resultado que você leva. Como encaixar isso no resto da carteira está em investimentos: como começar e montar a carteira em camadas.

O que a régua ×200 pede de um título público

A regra dos 200 diz que a renda mensal × 200 é o patrimônio que a sustenta. A premissa: o patrimônio rende perto de 1% ao mês; você retira metade, e a outra metade repõe a inflação. Em taxa, a régua pede cerca de 0,5% ao mês acima da inflação, já líquido: 6,17% ao ano.

Os títulos atrelados ao IPCA mostram a taxa real na vitrine. A taxa de compra do Tesouro IPCA+ (sem juros semestrais) no começo e no fim dos últimos 12 meses e nos dias da menor e da maior taxa do período:

Data IPCA+ 2035 IPCA+ 2050
30/09/2025 7,45% 6,98%
05/12/2025 7,04% 6,74%
30/07/2026 8,22% 7,54%
30/09/2026 7,43% 6,93%

Taxa ao ano acima do IPCA, antes de imposto e custódia (Tesouro Nacional, Tesouro Transparente). Nos dois vencimentos, a menor taxa do período foi a de 5 de dezembro de 2025, e a maior, a de 30 de julho de 2026.

Taxa da vitrine não é taxa líquida. Numa conta de exemplo, sem indicação de compra: o IPCA+ 2035 comprado a 7,43% e levado até o vencimento, com IR de 15%, custódia de 0,20% ao ano e inflação hipotética de 4% ao ano, deixa cerca de 6,0% ao ano acima da inflação. Com a taxa de 30 de julho de 2026, seriam 6,8%; com a de 5 de dezembro de 2025, 5,7%.

Com inflação entre 3,5% e 5% ao ano, o resultado muda menos de 0,1 ponto. No período, portanto, a taxa líquida ficou perto da régua, ora acima, ora abaixo. A conta vale para quem leva o título até o vencimento: vendido antes, ele pode valer menos do que custou.

Três ressalvas. A taxa muda todo dia: a média das taxas de compra do Tesouro IPCA+ foi de 3,19% ao ano em 2020 e de 7,88% em 2026, até setembro (média simples das taxas diárias de todos os vencimentos, com dados do Tesouro). O IPCA+ sem juros semestrais não paga nada no caminho; para virar renda, é preciso cupom semestral ou Renda+, e cada pagamento recolhe IR. E, no vencimento, o dinheiro volta para ser aplicado à taxa daquele dia.

Para comparar com a renda fixa que segue o CDI, a taxa dos empréstimos entre bancos, que anda colada na Selic: com tudo no CDI, depois do IR, o juro real médio foi de 3,14% ao ano de janeiro de 2006 a agosto de 2026 (Banco Central). Nesse ritmo, a mesma renda pediu 388 vezes o valor mensal, e não 200. É média passada, não promessa.

Os riscos de emprestar ao governo

  • Marcação a mercado. O preço do título é recalculado todo dia conforme os juros. Quem comprou o Tesouro IPCA+ 2050 em 30 de setembro de 2025 pagou R$ 858,47 por título; se vendesse em 30 de julho de 2026, receberia R$ 812,75, 5,3% menos, antes da custódia. Em 30 de setembro de 2026, o mesmo título valia R$ 942,61, 9,8% acima da compra, antes de imposto e custódia. Só quem leva até o vencimento recebe a taxa contratada.
  • Imposto de renda regressivo: 22,5% sobre o ganho até 180 dias, 20% até 360, 17,5% até 720 e 15% depois disso (Lei 11.033/2004).
  • IOF: no resgate antes de 30 dias, incide sobre o rendimento, de 96% no primeiro dia a zero no trigésimo (Decreto 6.306/2007).
  • Custódia da B3: 0,20% ao ano, com as exceções acima.
  • Risco do emissor: é o do governo federal, sem FGC.

Taxa passada não é promessa. A taxa travada na compra vale para quem leva o título até o fim; no caminho, o preço oscila para os dois lados.

O que decidir

Se você tem reserva no Tesouro Selic, CDB, fundo de renda fixa ou previdência, já recebe parte desses juros, direta ou indiretamente. A decisão é de método: quanto desse juro chega a você depois de taxas e impostos, e se o que sobra acima da inflação cobre a régua. A Conta da Liberdade mostra, com os seus números, quanto o seu patrimônio já paga e quanto falta.

Por Davi Menegon, fundador da Menegon Family Office. Conteúdo educativo, não é recomendação de investimento. Rentabilidade passada não é garantia de rentabilidade futura.

Perguntas frequentes

Quanto o Brasil paga de juros da dívida pública?

Nos 12 meses até agosto de 2026, os juros nominais do setor público consolidado somaram R$ 1,18 trilhão, 8,86% do PIB, segundo o Banco Central (nota de 30 de setembro de 2026). O valor é apropriado por competência: é o custo de juros do período, pago em dinheiro ou somado à dívida. Entram governo federal, Banco Central, estados, municípios e estatais.

Quem são os donos da dívida pública brasileira?

Em agosto de 2026, dos R$ 8,94 trilhões em títulos da dívida federal interna, 31,22% estavam com instituições financeiras, 22,63% com a previdência, 22,52% com fundos de investimento e 9,91% com não residentes, segundo o Tesouro Nacional. Pessoas físicas no Tesouro Direto tinham 3,04%. Por trás de bancos, fundos e previdência estão, em boa parte, clientes, cotistas e participantes.

Tesouro Direto tem garantia do FGC?

Não. Os títulos são dívida do Tesouro Nacional, e o risco é o do próprio governo federal. O FGC cobre produtos bancários como CDB, LCI e LCA, até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ em cada instituição ou conglomerado, e não cobre títulos públicos.

Qual o valor mínimo para investir no Tesouro Direto?

Desde novembro de 2024, a compra mínima é de 0,01 título, ou 1% do preço unitário, sem o antigo piso de R$ 30. Pelos preços de 30 de setembro de 2026, isso ia de cerca de R$ 2 a cerca de R$ 200, conforme o título. O Tesouro Reserva, lançado em maio de 2026, aceita aplicações a partir de R$ 1.

O Tesouro IPCA+ rende o suficiente para viver de renda?

Depende da taxa do dia da compra e do que sobra depois de imposto e custódia. Numa conta de exemplo, sem indicação de compra: em 30 de setembro de 2026, o Tesouro IPCA+ com vencimento em 2035 pagava IPCA + 7,43% ao ano; levado até o vencimento, com IR de 15%, custódia de 0,20% e inflação hipotética de 4%, sobrariam cerca de 6,0% ao ano acima da inflação, perto dos 6,17% que a régua ×200 pede. Vendido antes do vencimento, o título pode valer menos do que custou.

Fontes

  1. Nota para a Imprensa: Estatísticas Fiscais (dados de agosto de 2026) · Banco Central do Brasil, 30/09/2026
  2. Banco Central, SGS: séries 4616 e 5760 (juros nominais do setor público consolidado, em R$ e em % do PIB), 432 (meta Selic), 4391 (CDI) e 433 (IPCA), consultadas pelo código na tela do SGS · Banco Central do Brasil, 01/10/2026
  3. Relatório Mensal da Dívida Pública Federal, agosto de 2026 (texto e anexo 2.7, detentores da DPMFi) · Tesouro Nacional, 28/09/2026
  4. Balanço do Tesouro Direto, agosto de 2026 · Tesouro Nacional, 25/09/2026
  5. Taxas dos Títulos Ofertados pelo Tesouro Direto (série diária) · Tesouro Nacional, 01/10/2026
  6. Tarifas do Tesouro Direto (custódia de 0,20% ao ano e isenção do Tesouro Selic até R$ 10 mil) · B3
  7. Novas regras do Tesouro Direto entram em vigor hoje e impactam valor mínimo para investir · B3, 18/11/2024
  8. Tesouro Reserva: conheça o novo título do Tesouro Direto com operação 24x7 · B3, 11/05/2026
  9. Tesouro Renda+ (B3 Educação) · B3
  10. Tesouro Educa+ (B3 Educação) · B3
  11. Sobre a garantia do FGC · Fundo Garantidor de Créditos
  12. Lei nº 11.033/2004, art. 1º (tabela regressiva do imposto de renda) · Presidência da República
  13. Decreto nº 6.306/2007, art. 32 e anexo (IOF regressivo em resgates antes de 30 dias) · Presidência da República

Números e regras conferidos nas fontes acima na data de publicação ou de atualização do artigo. Como escrevemos.