Juros para empresas a 25%: o que muda no patrimônio do dono
A Fazenda cortou o PIB de 2026 para 2% e citou o crédito caro. Quanto custa R$ 1 milhão em capital de giro, quanto rende no CDI e o que o dono decide.
Menegon Family Office · MercadoMercadoPor Davi MenegonMenegon Family Office
- Publicado
- Leitura
- 7 min
- Atualizado
A Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda cortou, em 22 de setembro de 2026, a projeção de crescimento do PIB de 2026 de 2,3% para 2,0%. PIB é o produto interno bruto, a soma do que o país produz num ano. Entre as causas, o Boletim MacroFiscal de setembro aponta o juro em patamar restritivo, o que “se manifesta no custo do crédito às empresas”.
Os dados do Banco Central mostram esse custo. O juro médio do crédito livre para empresas chegou a 25,15% ao ano em julho de 2026, o maior desde julho de 2017 (série 20718). Para o dono, a conta é concreta: R$ 1 milhão de capital de giro de prazo acima de um ano, a 23,56% ao ano, custa perto de R$ 235,6 mil em juros em um ano, enquanto o mesmo milhão no CDI rende R$ 136,5 mil. E quem tem o patrimônio só na empresa sente o ciclo por mais de um lado.
O que a Fazenda revisou, e por quê
Serviços e indústria puxaram a revisão para baixo; a agropecuária compensou parte (SPE, 22/09/2026):
- Serviços: de 2,4% para 1,8% em 2026.
- Indústria: de 2,1% para 1,7%. A indústria de transformação segue “pressionada pelo custo do crédito e pela demanda mais fraca por bens de consumo”. Quem sustenta o setor é a extrativa, com petróleo e gás.
- Agropecuária: de 1,8% para 2,8%.
Para 2027, a projeção passou de 2,5% para 2,3%. O boletim também registra que o comprometimento da renda das famílias com o pagamento de dívidas bateu 28,9% em junho, o maior da série histórica (26,6% sem o financiamento imobiliário). Para a empresa que vende ao consumidor, é cliente com menos folga no orçamento.
Quanto custa o crédito para empresas hoje
Capital de giro é o dinheiro que financia o dia a dia: estoque, folha, o prazo que a empresa dá ao cliente. O rotativo é a linha que se renova sozinha, como um cheque especial da empresa. O CDI é a taxa dos empréstimos de um dia entre bancos, referência para o caixa aplicado.
| Linha | Taxa ao ano | Por mês |
|---|---|---|
| Crédito livre para empresas (jul/2026) | 25,15% | 1,89% |
| Capital de giro acima de 365 dias (jul/2026) | 23,56% | 1,78% |
| Capital de giro rotativo (jul/2026) | 34,86% | 2,52% |
| CDI (desde 17/09/2026) | 13,65% | 1,07% |
Fonte: Banco Central, séries 20718, 20723, 20724 e 4389, consulta em 01/10/2026.
A Selic começou a cair em março de 2026, com o primeiro corte em vigor desde 19 de março (série 432 do Banco Central), e está em 13,75% desde 17 de setembro. O juro das empresas não acompanhou: estava em 24,85% ao ano em março e chegou a 25,15% em julho. A queda da taxa básica leva meses para chegar ao balcão. Até lá, o spread, a distância entre o que a empresa paga e o que o dinheiro rende aplicado, fica largo.
A conta do dono: giro caro e caixa no CDI
Uma situação comum: a empresa tem R$ 1 milhão aplicado e, ao mesmo tempo, R$ 1 milhão tomado em capital de giro.
- Custo do giro: R$ 1 milhão a 23,56% ao ano dá R$ 235.600 de juros em um ano, cerca de R$ 17.786 por mês.
- Rendimento do caixa: R$ 1 milhão no CDI a 13,65% rende R$ 136.500 brutos no ano, cerca de R$ 10.720 por mês.
- Diferença: 9,9 pontos percentuais ao ano, perto de R$ 99.000 por ano a cada R$ 1 milhão.
Pegar crédito e manter o caixa aplicado custa R$ 99 mil ao ano
No rotativo, a 34,86% ao ano, o mesmo milhão custa 2,52% ao mês, cerca de R$ 25.235 por mês.
Como fizemos a conta. A taxa anual vira mensal por juros compostos: (1 + taxa anual) elevado a 1/12, menos 1. Assim, 23,56% ao ano dá 1,78% ao mês, e 13,65% dá 1,072%. Os valores anuais já incluem juros sobre juros, por isso não batem com a parcela mensal vezes 12. Valores arredondados ao real, antes de impostos. O tratamento tributário de juros pagos e rendimentos recebidos depende do regime da empresa e muda o número final.
Nem todo caixa pode virar amortização. Parte dele é reserva que a operação precisa ter. A pergunta é quanto dele é reserva e quanto é hábito.
Crédito que paga despesa e crédito que compra ativo
Na arquitetura patrimonial da Menegon Family Office, o crédito é o Motor 2, o Crédito Inteligente, e tem uma regra: dívida boa compra um ativo que rende mais do que ela custa. O detalhe está em dívida boa e crédito inteligente.
Na empresa, o teste é o mesmo. Giro a 1,78% ao mês que financia um estoque que gira com margem acima disso pode fazer sentido. Giro que cobre folha de uma operação que não se paga só adia o problema, e cada mês de adiamento custa perto de R$ 17,8 mil por milhão.
Com o juro das empresas no maior nível desde julho de 2017, o crédito que paga despesa corrói o patrimônio do dono mais rápido.
O patrimônio do dono não pode morar só na empresa
A revisão da Fazenda mostra como o ciclo chega junto: a venda desacelera, o crédito encarece e o cliente está mais endividado. Se todo o patrimônio do dono está dentro da empresa, um único choque atinge a renda, o valor do negócio e a capacidade de pegar crédito ao mesmo tempo.
Nos três motores do patrimônio, a participação em empresa é parte do Motor 3, a Economia Real, ao lado de imóveis de renda, agro e energia. Os riscos da categoria estão em agro, energia e participações em empresas.
O que protege o dono é ter, fora da empresa, o Motor 1, o Mercado Financeiro, com liquidez, e uma renda que não dependa do mesmo ciclo. A régua ×200 mostra o tamanho desse patrimônio: a renda mensal que você quer, multiplicada por 200.
O que a Fazenda espera para 2027
O boletim projeta aceleração no quarto trimestre, com o PIB crescendo 2,1% sobre o mesmo período de 2025, conforme a queda da Selic chega à indústria de transformação, à construção e aos serviços mais sensíveis aos juros. Para 2027, diz que “o investimento ganha dinamismo com o barateamento do capital”.
A hipótese da SPE é de Selic acumulada de 14,22% em 2026 e 12,67% em 2027. O Focus de 21/09 projeta 13,50% no fim de 2026 e 12% no fim de 2027. São projeções: a própria revisão desta semana mostra que elas mudam, e o custo do crédito às empresas costuma seguir a Selic com atraso. Contamos o que a ata do Copom disse em Selic a 13,75%.
O que decidir agora
Quatro perguntas, com os números da sua empresa:
- Quanto a empresa paga de juros por mês, e sobre qual saldo?
- Caixa aplicado e dívida convivem? Por quê? Separe a reserva necessária do que sobra.
- Cada real emprestado compra ativo ou paga despesa? Se paga despesa, qual é o plano para parar.
- Quanto do seu patrimônio depende da empresa? Se a resposta for quase tudo, o primeiro passo é construir renda fora dela.
A Conta da Liberdade calcula quanto patrimônio fora da empresa sustenta a renda que você quer.
Perguntas frequentes
Quanto está o juro médio para empresas em 2026?
O juro médio do crédito com recursos livres para empresas chegou a 25,15% ao ano em julho de 2026, o maior desde julho de 2017, segundo a série 20718 do Banco Central. O capital de giro com prazo acima de um ano custava 23,56% ao ano, e o capital de giro rotativo, 34,86% ao ano.
Por que a Fazenda reduziu a projeção do PIB de 2026?
No Boletim MacroFiscal de 22/09/2026, a Secretaria de Política Econômica cortou a projeção de 2,3% para 2,0%. O boletim cita o primeiro semestre mais fraco, o efeito defasado dos juros sobre a demanda e o custo do crédito, que pesa na indústria de transformação e no orçamento das famílias. Serviços e indústria foram revisados para baixo; a agropecuária, para cima.
Vale a pena a empresa tomar capital de giro e manter caixa aplicado no CDI?
Com o giro acima de um ano a 23,56% e o CDI a 13,65% ao ano, cada R$ 1 milhão nessa situação custa cerca de R$ 99 mil por ano de diferença, antes de impostos. Parte do caixa pode ser reserva que precisa existir, então a resposta depende do tamanho dessa reserva e do prazo da dívida. O efeito tributário varia com o regime da empresa.
Quando o juro para empresas deve cair?
O Copom cortou a Selic para 13,75% em 16/09/2026, e o Focus de 21/09 projeta 13,50% no fim de 2026 e 12% no fim de 2027. A SPE espera que a queda chegue aos poucos à indústria de transformação, à construção e aos serviços. São projeções, revisadas a cada mês, e o custo do crédito às empresas costuma seguir a Selic com atraso.
Fontes
- Secretaria de Política Econômica projeta crescimento de 2% para o PIB em 2026 e 2,3% em 2027 · Ministério da Fazenda, 22/09/2026
- Boletim MacroFiscal da SPE – setembro de 2026 · Ministério da Fazenda (SPE), 22/09/2026
- SGS: séries 20718 (juros PJ, recursos livres), 20723 e 20724 (capital de giro) e 4389 (CDI), consulta pelo código · Banco Central do Brasil, 01/10/2026
- Série 20718: taxa média de juros das operações de crédito com recursos livres, pessoas jurídicas, total · Banco Central do Brasil (Portal de Dados Abertos), 01/10/2026
- Taxas de juros básicas: histórico das decisões do Copom · Banco Central do Brasil, 23/09/2026
- Comunicado da 281ª reunião do Copom: Copom reduz a taxa Selic para 13,75% a.a. · Banco Central do Brasil, 16/09/2026
- Focus – Relatório de Mercado (projeções coletadas até 18/09/2026) · Banco Central do Brasil, 21/09/2026
Números e regras conferidos nas fontes acima na data de publicação ou de atualização do artigo. Como escrevemos.