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Mexer na carteira a cada notícia custa caro, mostra pesquisa

Num estudo com 66 mil famílias, quem mais comprava e vendia ações rendeu 7,1 pontos percentuais por ano a menos. A conta em R$ 1 milhão e como agir no susto.

Vista aérea de edifícios e ruas em uma paisagem urbana.Menegon Family Office · MercadoMercado
Fotografia ilustrativa · William Ducret / Unsplash

Por Menegon Family Office

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7 min

Mexer na carteira a cada notícia costuma custar caro. Uma pesquisa com 66.465 famílias americanas mostrou que os 20% que mais compravam e vendiam ações (no jargão, os que mais operavam) renderam 11,4% ao ano, já descontados os custos. Os 20% que menos mexiam renderam 18,5% ao ano no mesmo período, de 1991 a 1996.

Aplicada a R$ 1 milhão por seis anos, essa diferença chegaria a cerca de R$ 858 mil. O motivo não foi escolher ações piores: foi pagar custos demais. Numa semana de sustos como esta, o número ajuda a separar o que é notícia do que é decisão.

A semana deu motivos de sobra para mexer

O dólar oscilou muito. Pela PTAX, a cotação oficial que o Banco Central calcula todo dia, a moeda americana foi de R$ 5,1117 em 21 de setembro de 2026 para R$ 5,2204 em 29 de setembro, alta de 2,13% em seis dias úteis. No dia 30, caiu 0,76%, para R$ 5,1809. No dia 1º de outubro, voltou a subir 0,52%, para R$ 5,2079.

Nos Estados Unidos, o juro do título de 10 anos do Tesouro americano, uma referência do custo do dinheiro no mundo, fechou em 5,29% ao ano em 30 de setembro e em 5,24% em 1º de outubro, segundo o Departamento do Tesouro. Ao longo do dia 1º, chegou a 5,344%, o maior nível desde 2002, segundo a CNBC. O peso desse juro está explicado no nosso artigo sobre o título americano de 10 anos acima de 5%.

O pano de fundo é o Fed, o banco central americano. Em 16 de setembro de 2026, ele subiu os juros para a faixa de 3,75% a 4% ao ano, a primeira alta desde julho de 2023. A próxima reunião é em 27 e 28 de outubro. E nesta sexta, 2 de outubro, às 9h30 de Brasília, sai o relatório de emprego dos EUA de setembro, mais uma notícia capaz de mexer com os preços.

Cada uma dessas manchetes parece pedir uma reação. Uma pesquisa clássica mediu quanto custa reagir.

O que a pesquisa mediu em 66 mil famílias

Os economistas Brad Barber e Terrance Odean, na época professores da Universidade da Califórnia em Davis, analisaram as contas de 66.465 famílias em uma grande corretora americana, de 1991 a 1996. O estudo saiu em 2000 no The Journal of Finance, uma das principais revistas acadêmicas de finanças, com um título que já diz a conclusão: Trading Is Hazardous to Your Wealth, algo como “operar faz mal ao seu patrimônio”.

Eles separaram as famílias pelo giro da carteira, que é a parte dela trocada por compras e vendas num período. Os 20% que mais operavam giravam mais de 8,8% da carteira por mês. A família média girava mais de 75% por ano: em um ano, trocava mais de três quartos do que tinha.

O retorno médio por ano, já descontados os custos:

Quem mais mexia na carteira ganhou menos

Retorno médio por ano, de 1991 a 1996. Famílias: já descontado o custo de cada compra e venda. Bolsa: índice das ações americanas, sem custos

Quem mais mexia na carteira ganhou menos
Os 20% que menos mexiam18,5%
Bolsa americana (referência)17,9%
Família média16,4%
Os 20% que mais mexiam11,4%
Média de uma amostra dos Estados Unidos nos anos 1990, com corretagem mais cara que a de hoje. Retorno passado não é promessa: ações oscilam e podem ter anos de perda. Fonte: Barber e Odean, The Journal of Finance, v. 55, n. 2, abril de 2000.

No mesmo período, o mercado de ações americano rendeu 17,9% ao ano, e a família média, 16,4%. Quem menos mexia ficou acima do mercado. Quem mais mexia ficou 6,5 pontos percentuais abaixo dele por ano, na média.

Antes dos custos, quase todos empatavam

O dado mais útil do estudo é o retorno antes dos custos. Nessa conta, quem operava muito e quem operava pouco tinham desempenho quase igual: não foi a escolha das ações que separou os grupos.

A diferença veio do pedágio de cada operação, que tem duas partes. Uma é a corretagem, a tarifa cobrada por ordem. A outra é o spread, a diferença entre o preço pelo qual você compra e o preço pelo qual consegue vender, que se perde a cada compra seguida de venda.

Para os autores, o que explica tanta operação é o excesso de confiança: o investidor acredita que sabe mais do que sabe e age mais do que deveria. Não por acaso, o artigo abre com uma frase de Benjamin Graham, autor de O Investidor Inteligente: o principal problema do investidor, e até o seu pior inimigo, “provavelmente é ele mesmo”.

A conta em R$ 1 milhão

Para dar tamanho à diferença, aplicamos os retornos do estudo a R$ 1 milhão durante seis anos, a duração da amostra. A conta usa juros compostos, ano sobre ano:

  • 18,5% ao ano (quem menos operava): R$ 1.000.000 × 1,185⁶ = cerca de R$ 2,77 milhões.
  • 11,4% ao ano (quem mais operava): R$ 1.000.000 × 1,114⁶ = cerca de R$ 1,91 milhão.
  • Diferença: cerca de R$ 858 mil, quase o valor inicial inteiro.

Os números vêm de ações americanas entre 1991 e 1996, um período de bolsa forte. Não são projeção nem promessa para nenhum investimento de hoje. O que a conta mostra é o peso do custo de agir demais, que se acumula como os juros, só que contra você.

Os limites do estudo e o que continua valendo

A pesquisa tem limites claros. Trata de ações individuais, nos Estados Unidos, numa época em que a corretagem era bem mais cara do que hoje. Uma família brasileira com renda fixa, fundos e imóveis não vai repetir esses números.

Corretagem zero, porém, não zera o custo de mexer. O spread continua lá. A venda com lucro pode gerar imposto antes da hora. E há o custo mais difícil de medir: vender depois da queda e comprar de novo depois da alta, que é o que acontece com quem decide pela manchete da semana.

Decidir antes do susto, não durante

Uma saída é tomar a decisão grande com calma e deixar a semana agitada sem decisão nenhuma. Na arquitetura patrimonial, isso tem três peças:

  1. Faixas por motor. Cada parte do patrimônio, que chamamos de motor (a que paga a renda, a que cresce, a que protege em moeda forte), tem uma proporção-alvo e uma faixa aceitável, definidas antes, por escrito.
  2. Rebalanceamento por regra. Rebalancear é trazer cada parte de volta à proporção combinada. O gatilho é uma data marcada (por exemplo, a cada seis meses) ou um desvio grande (a fatia saiu da faixa), nunca uma manchete.
  3. Renda separada da oscilação. Quem vive de renda precisa que o dinheiro dos próximos meses não dependa do preço do dólar nesta sexta. Na regra ×200, em que o patrimônio é 200 vezes a renda mensal, ele paga a renda sem que você precise vender na hora errada.

Com as três peças no lugar, o relatório de emprego desta sexta vira informação, não ordem de venda.

O que decidir nesta sexta

Antes de abrir o aplicativo da corretora, responda a três perguntas:

  1. A minha carteira tem faixas escritas? Se não tem, a decisão desta semana é criá-las, não trocar ativos.
  2. Alguma fatia saiu da faixa? Se nenhuma saiu, a regra diz para não fazer nada.
  3. Quantas vezes mexi na carteira este ano, e quanto paguei por isso? Some corretagem, spread e imposto. O total costuma surpreender.

Se quiser montar essas faixas a partir da renda de que você precisa, a Conta da Liberdade faz o cálculo com os seus números.

Perguntas frequentes

Mexer muito na carteira de investimentos dá prejuízo?

Nem sempre dá prejuízo, mas costuma render menos. No estudo de Barber e Odean, com 66.465 famílias americanas entre 1991 e 1996, os 20% que mais operavam renderam 11,4% ao ano, já descontados os custos, contra 18,5% dos 20% que menos operavam. É uma média passada de uma amostra dos Estados Unidos, não uma promessa para o seu caso.

Por que quem opera mais ganha menos?

Porque cada compra e venda tem custo: corretagem, spread (a diferença entre o preço de compra e o de venda) e, em muitos casos, imposto sobre o ganho. No estudo, antes dos custos, quem operava muito e quem operava pouco tinham desempenho quase igual. Para os autores, o excesso de confiança explica o excesso de operações.

Devo vender meus investimentos quando o mercado cai?

O blog não indica compra nem venda de ativo. O que a pesquisa mostra é que decidir pela manchete tende a sair caro. Um método melhor é definir antes as faixas de cada parte da carteira e só ajustar por regra: numa data marcada ou quando uma parte sair da faixa.

O que é rebalanceamento da carteira?

É trazer cada parte da carteira de volta à proporção que você decidiu. Se a parte em ações deveria ser 30% e, depois de uma alta, virou 38%, você vende o excesso até voltar à faixa. Feito por regra, numa data fixa ou quando o desvio passa de um limite, ele substitui a reação ao noticiário.

Fontes

  1. Trading Is Hazardous to Your Wealth: The Common Stock Investment Performance of Individual Investors (Brad M. Barber e Terrance Odean), The Journal of Finance, v. 55, n. 2, p. 773-806 · The Journal of Finance, abril de 2000
  2. Cotação do dólar por período (PTAX de venda), 21/09/2026 a 01/10/2026 · Banco Central do Brasil, 02/10/2026
  3. Daily Treasury Par Yield Curve Rates (2026) · U.S. Department of the Treasury, 01/10/2026
  4. Stock market news for Oct. 1, 2026 · CNBC, 01/10/2026
  5. Federal Reserve issues FOMC statement · Federal Reserve, 16/09/2026
  6. Meeting calendars and information (FOMC) · Federal Reserve, 02/10/2026
  7. Schedule of releases for The Employment Situation · U.S. Bureau of Labor Statistics, 02/10/2026

Números e regras conferidos nas fontes acima na data de publicação ou de atualização do artigo. Como escrevemos.