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Resenhas

The Buffettology Workbook, o método que mede o retorno pelo preço pago

Resumo do livro de Mary Buffett e David Clark: o retorno pelo preço pago, o que os exemplos de 1980 a 2000 não provam e o peso do preço de entrada.

Menegon Family Office · ResenhasCapa do livro The Buffettology Workbook, de Mary Buffett e David Clark, na edição da Fireside (Simon & Schuster).
Capa da edição original · Fireside (Simon & Schuster)

Por Menegon Family Office

Publicado
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12 min

O livro pede que o leitor imagine dois investidores que compram ações da mesma fabricante de chicletes, a Wrigley, em 1989. Um paga US$ 11,80 por ação; o outro, US$ 17,90. Os dois vendem em 1999, a US$ 100. Pela nossa conta, sem contar dividendos, o primeiro ganhou 23,8% ao ano; o segundo, 18,8% (o livro traz 18,7%). Com US$ 100 mil, uns US$ 847 mil contra US$ 559 mil.

É a demonstração do capítulo 8 (p. 87-90 da edição Fireside), e resume o livro: o retorno de uma compra depende menos da empresa do que do preço que se pagou por ela. Os autores resumem: “Pague mais, ganhe menos. Pague menos, ganhe mais.”

A leitura da Menegon: o livro ensina uma boa conta, a do retorno pelo preço pago, e uma pergunta que a acompanha: o preço caiu ou o negócio piorou? Ele não ensina a margem de erro de uma projeção; voltamos a isso nos pontos de atenção.

Quem são os autores e que livro é esse

A orelha do livro apresenta Mary Buffett como ex-nora de Warren Buffett e David Clark como gestor de carteiras. Warren Buffett não é autor, e não achamos registro público de que tenha revisado ou endossado a obra. O nome dele no título é a marca do método que os dois dizem extrair do que ele fez.

O Workbook saiu em 2001, como caderno de exercícios do livro Buffettology, dos mesmos autores. Boa parte são perguntas com espaço para resposta e gabarito. Lemos uma cópia digital em inglês, de tabelas quebradas, e conferimos cada conta contra o enunciado. As páginas citadas são as da edição Fireside, e não as da cópia digital. As paráfrases e a citação são traduções nossas.

O aviso legal do próprio livro diz que são opiniões dos autores, e não recomendação de compra ou venda. O mesmo vale para esta resenha: é conteúdo educativo, e nenhuma empresa citada aqui é indicação.

Resumo: o método em cinco ideias

O mercado é de curto prazo. Segundo os autores, cerca de 95% dos investidores vivem de boa e má notícia: compram com a boa e vendem com a má. O número é deles, sem fonte. Daí o preço sobe e cai mais do que o valor da empresa (cap. 1).

Duas espécies de empresa. A empresa de commodity vende produto que o cliente troca pelo mais barato: margem baixa, lucro que sobe e desce (caps. 2 e 3). A que o livro quer é a de monopólio do consumidor, com marca ou posição que dá poder de subir preço sem investir muito (cap. 4). Há oito perguntas de triagem; entre elas: o lucro cresce, a dívida é baixa, o retorno sobre o patrimônio (quanto a empresa lucra por real que os donos têm nela) é de 15% ou mais todo ano, e a empresa repassa a inflação (cap. 5).

Onde procurar e quando comprar. Os autores sugerem olhar onde o cliente volta a comprar: marca de consumo rápido, anúncio constante, serviço recorrente, varejo regional (cap. 6). E comprar só quando uma má notícia passageira derruba o preço e o negócio continua intacto: pânico de mercado, recessão do setor, problema da empresa, mudança estrutural (cap. 7).

A ação como título cujo juro cresce. São doze cálculos. O lucro por ação (o lucro da empresa dividido pelo número de ações) dividido pelo preço pago funciona como o juro inicial de um título. Cada lucro que a empresa retém e reinveste faz esse juro crescer (cálculos 2, 3 e 7).

O ganho anual projetado. Estima-se o lucro da empresa daqui a dez anos, supõe-se um preço de venda e calcula-se o ganho anual que o preço pago hoje daria. Compara-se com o título do Tesouro, com outras opções e com a inflação (cálculos 4 e 6 a 8).

De onde vem a ideia

A fórmula das apostas de curto prazo (cálculo 12) vem de Benjamin Graham, mestre de Buffett. Os casos da Berkshire conferem nas cartas aos acionistas. McDonald’s: 30.156.600 ações compradas em 1996 por US$ 1.265,3 milhões, que, com a divisão posterior de cada ação em duas, dão as 60.313.200 a US$ 20,97 do livro. Coca-Cola: US$ 592,54 milhões em 1988, o valor da carta daquele ano. O livro não menciona as compras de 1989, que levaram a posição a US$ 1,02 bilhão, segundo a carta de 1989.

Há evidência de que comprar barato rende mais, com ressalvas. Lakonishok, Shleifer e Vishny (1994) acharam que, em ações americanas, as estratégias de valor, de comprar ação de preço baixo em relação ao lucro, aos dividendos ou ao patrimônio, renderam mais, e atribuíram o resultado ao comportamento pouco racional do investidor típico, e não a mais risco. Li, Ng e Swaminathan (2025), com dados de 1977 a 2023, sugerem que a fraqueza do valor nos últimos anos é cíclica, e não permanente. No Brasil, Santos e Montezano (2011) acharam que carteiras de ações de valor superaram as de ações de crescimento (empresas que crescem rápido e custam caro) entre 1989 e 2009, recorte que acaba em 2009.

O que o livro acerta

Separar o preço do negócio. Perguntar o que derrubou o preço, e se isso estraga o ganho de longo prazo, é o que falta a quem vende no pânico. É a mesma lição de A psicologia financeira, em forma de conta.

O preço pago define o retorno. A demonstração do começo é correta e cabe em qualquer ativo. O mesmo ganho de 10% é 10% em um ano, 4,9% ao ano em dois e 21% ao ano em seis meses (cálculo 12), o que ensina o custo de esperar.

Conferir o próprio erro. Os autores testam as projeções de quatro casos que escolheram e mostram onde erraram.

Pontos de atenção

Projeção com premissa fixa. O livro mantém por doze anos o retorno de 33,6% sobre o patrimônio e a retenção de 58% do lucro da Coca-Cola. A faixa de retorno que ele dá varia só o múltiplo de venda, e não o erro do lucro; a nossa conta, mais adiante, varia o crescimento.

Quatro projeções conferidas. Em duas, o lucro real veio abaixo do projetado: no McDonald’s, de 8,7% a 12,9% (1997 a 1999); na Coca-Cola, de 0% a 7,8% entre 1989 e 1997, depois 32,5% em 1998 e 59,5% em 1999, por crise na Ásia, lote contaminado na Bélgica e reestruturação. Em Gannett e Freddie Mac, o lucro real superou o projetado na maior parte dos anos. Os autores dizem que, em empresa com monopólio, a surpresa costuma ser boa. O ganho do McDonald’s no exemplo veio do preço de venda em 1999, e não do lucro projetado.

Vencedores escolhidos pelos autores. Os casos são Coca-Cola, Wrigley, Gannett, Freddie Mac e McDonald’s, todos bem-sucedidos no livro. No que lemos, não há comparação com empresa que parecia monopólio e não se recuperou. É o viés de sobrevivência (só se vê quem deu certo) que Nassim Taleb descreve em Iludidos pelo acaso.

Regras de bolso sem fonte. O corte de 15% de retorno sobre o patrimônio, a média de 12% das empresas americanas em 40 anos e o aumento de preço de 4% ao ano vêm sem fonte, e não achamos a série de 12%. O próprio livro tem exceções: o McDonald’s aparece com retorno de 8% e é tratado como monopólio; uma companhia aérea, com 15,5% em 1999, é tratada como commodity (o corte vale para todos os anos, e não para um só).

Números de 1980 a 2000, em outro país. Os cálculos supõem título americano a 7% e imposto americano (35% sobre o ganho de capital e 14% sobre dividendos recebidos, no exemplo da Coca-Cola). No Brasil, o imposto é outro e o título de comparação também.

O que Buffett escolheu para um caso. Na carta de 2013, Buffett manda o administrador do dinheiro que deixará à esposa pôr 90% em um fundo de índice (que copia o S&P 500, as 500 maiores empresas dos EUA) de custo baixo e 10% em títulos públicos curtos. A aposta de 2007 contra fundos de hedge (gestores que cobram caro para escolher ativos) terminou na carta de 2017: de 2008 a 2017, o índice rendeu 125,8% (cerca de 8,5% ao ano); os cinco fundos de fundos que o outro lado escolheu, de 2,8% a 87,7%. É o resultado de uma aposta, e não prova que nenhum gestor ativo ganha. Mostra o que Buffett escolheu para um dinheiro que ele não ia acompanhar.

Quanto o preço de entrada muda o retorno?

O livro pede para comparar o lucro por ação com o preço pago e com o título público; aqui, o Tesouro IPCA+, que paga a inflação mais uma taxa fixa. O múltiplo é o preço dividido pelo lucro por ação dos últimos 12 meses: 8 vezes quer dizer pagar R$ 8 por cada R$ 1 de lucro anual. Fizemos a comparação com números brasileiros e uma simplificação nossa: o livro projeta lucro retido e reinvestido; nós supomos que a empresa distribui todo o lucro, que o lucro cresce a uma taxa fixa acima da inflação e que a ação é vendida ao mesmo múltiplo da compra. Tudo é antes de imposto e já descontada a inflação.

Com o lucro crescendo 2% ao ano acima da inflação por dez anos, o retorno acima da inflação fica entre 14,8%, se a ação for comprada a 8 vezes o lucro, e 7,1%, se for comprada a 20 vezes. Os 2% são premissa nossa, não do livro. Em termos práticos, o retorno é quase o lucro dividido pelo preço (a 8 vezes, 12,5%) mais o crescimento do lucro (2%). É aritmética, e por isso vale para qualquer ativo que gere renda.

Retorno anual acima da inflação conforme o preço pago por R$ 1 de lucro anual, em dez anos

Lucro crescendo 2% ao ano acima da inflação, todo pago ao acionista, venda ao mesmo múltiplo, antes de imposto

Retorno anual acima da inflação conforme o preço pago por R$ 1 de lucro anual, em dez anos
Ação a 8 vezes o lucro (R$ 8 por R$ 1)14,8% ao ano
Ação a 12 vezes o lucro10,5% ao ano
Ação a 16 vezes o lucro8,4% ao ano
Ação a 20 vezes o lucro7,1% ao ano
Tesouro IPCA+ 2037 (taxa contratada, antes do IR), em 23/10/2026perto de 6,7% ao ano
Premissas: o lucro por ação cresce 2% ao ano acima da inflação por dez anos (premissa nossa) e é todo pago no fim de cada ano; a ação é vendida no décimo ano ao mesmo múltiplo, sobre o lucro dos 12 meses anteriores; tudo antes de imposto. O Tesouro IPCA+ 2037, com juros semestrais, pagava IPCA + 6,73% em 23/10/2026, antes do IR; a taxa só é garantida se o título for levado ao vencimento, pois vendido antes vale o preço do dia. Depois do IR (15% sobre o rendimento nominal inteiro), rende cerca de 5,1% ao ano acima da inflação, com IPCA de 4,5%; a ação paga 15% só sobre o ganho de capital na venda. Ação tem mais risco. Ilustração, não previsão. Fonte: Conta da Menegon Family Office; Tesouro Nacional, via InvestNews (23/10/2026).

O que decide é a margem de erro. Se o lucro crescer 2 pontos a menos, ou seja, só acompanhar a inflação, os quatro retornos caem para 12,5%, 8,3%, 6,3% e 5,0%. Antes de imposto, quem pagou 16 vezes o lucro passa a ganhar menos que o Tesouro (6,3% contra perto de 6,7%), e quem pagou 20 ganha 1,7 ponto a menos. Um erro de 2 pontos no crescimento tira pouco mais de 2 pontos do retorno, mais do que a diferença entre pagar 16 ou 20 vezes, que é de 1,3 ponto.

A conta não escolhe empresa nem diz que ação é barata. Mostra como o preço de entrada e a margem de erro dividem o retorno. Se o múltiplo na venda for menor que o da compra, o retorno cai mais. O título entra como termo de comparação, não como recomendação.

O que muda no seu patrimônio

  • Antes de vender no pânico, escreva o que mudou: o preço ou o negócio?
  • Para qualquer compra, calcule o retorno inicial, o lucro por ação dividido pelo preço, e compare com o rendimento do Tesouro IPCA+ acima da inflação, como referência.
  • Faça a conta duas vezes, uma com a sua previsão e outra com o lucro crescendo 2 pontos a menos. Se a segunda não paga o risco para você, o preço de entrada está alto para a sua margem de erro.
  • Para o dinheiro que você não quer acompanhar, pergunte quanto custa, em taxas e em tempo, escolher papéis. A carta de Buffett mostra a escolha dele para um caso; não é indicação.
  • Anote o preço e o motivo de cada decisão, para saber depois se errou a conta ou teve azar.

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Vale a pena ler The Buffettology Workbook?

Vale como treino de raciocínio, se você lê inglês e gosta de conta: a pergunta do preço, a conta do preço pago e a margem de erro. Passe rápido pelas regras de bolso e pelos casos americanos, que os autores escolheram depois de conhecer o resultado. Quem prefere um método de ações com regra pronta pode ler também A fórmula mágica, que fecha a conta de outro jeito. Este texto é educativo e não é recomendação de investimento.

Perguntas frequentes

Qual é o resumo de The Buffettology Workbook?

É um caderno de exercícios que ensina o investimento em valor (comprar uma empresa boa quando o preço está abaixo do que ela vale), atribuído a Warren Buffett. Primeiro acha-se uma empresa com marca ou posição única, que o livro chama de monopólio do consumidor e que pode subir preço sem investir muito. Depois se espera uma má notícia passageira derrubar o preço. Por fim, calcula-se o ganho anual que a compra daria ao preço pago, em 12 contas.

Warren Buffett escreveu o The Buffettology Workbook?

Não. Os autores são Mary Buffett, ex-nora de Warren Buffett, e David Clark, gestor de carteiras, segundo a orelha do livro. Não achamos registro público de que Buffett tenha escrito, revisado ou endossado a obra.

The Buffettology Workbook tem edição em português?

Talvez. A Fundamento lançou no Brasil, em agosto de 2025, uma coleção Buffettologia, com um volume chamado Workbook – Guia Prático. Não achamos a ficha técnica nem se é tradução deste livro, de 2001. Esta resenha usa o original em inglês.

O método do livro funciona no Brasil?

A ideia, sim; as regras de bolso, não como estão. Os exemplos usam empresas americanas, imposto americano e título do Tesouro americano a 7%. No Brasil, a comparação justa do lucro anual da ação em relação ao preço é com o Tesouro IPCA+, que em 23/10/2026 pagava perto de 6,7% ao ano acima da inflação no vencimento de 2037.

The Buffettology Workbook vale a pena?

Vale como treino de raciocínio: separar o preço do negócio, calcular o retorno pelo preço pago e contar a margem de erro. Não vale como método de escolher ações: os casos são vencedores escolhidos pelos autores, e as projeções do próprio livro ora ficaram acima, ora abaixo do lucro real, com erro de até 59,5% em um ano.

Fontes

  1. The Buffettology workbook: value investing the Warren Buffett way (Fireside, 2001, 190 p., ISBN 0684871718) · Internet Archive (registro de biblioteca), consulta em 26/10/2026
  2. Buffettologia 1, Buffettologia 2 e Workbook – Guia Prático (lançamento da Fundamento no Brasil) · InfoMoney, 23/08/2025
  3. Carta aos acionistas da Berkshire Hathaway de 2013 (instrução de 90% em fundo de índice do S&P 500 e 10% em títulos curtos para o legado da esposa) · Berkshire Hathaway, consulta em 26/10/2026
  4. Carta aos acionistas da Berkshire Hathaway de 2017 (resultado final, em dez anos, da aposta de 2007 contra fundos de hedge: índice +125,8%; os cinco fundos de fundos, de +2,8% a +87,7%) · Berkshire Hathaway, consulta em 26/10/2026
  5. Carta da Berkshire de 1988 (14.172.500 ações da Coca-Cola, custo de US$ 592,54 milhões) · Berkshire Hathaway, consulta em 26/10/2026
  6. Carta da Berkshire de 1989 (23.350.000 ações da Coca-Cola, custo de US$ 1.023,92 milhões) · Berkshire Hathaway, consulta em 26/10/2026
  7. Carta da Berkshire de 1996 (30.156.600 ações do McDonald's, custo de US$ 1.265,3 milhões) · Berkshire Hathaway, consulta em 26/10/2026
  8. Contrarian investment, extrapolation, and risk (Lakonishok, Shleifer e Vishny) · The Journal of Finance, 49(5), 1994, 1994
  9. Is the value premium dead? Forecasting value-growth cycles with the implied value premium (Li, Ng e Swaminathan; dados de 1977 a 2023) · Journal of Financial and Quantitative Analysis, 2025, 2025
  10. Ações de valor e de crescimento no Brasil (Santos e Montezano; dados de 1989 a 2009) · Revista Contabilidade & Finanças, 22(56), 2011, 2011
  11. Tesouro Direto: taxas de 23/10/2026 (Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais 2037: IPCA + 6,73%; IPCA+ 2040: IPCA + 6,58%; IPCA+ 2050: IPCA + 6,48%) · InvestNews, com dados do Tesouro Nacional, 23/10/2026

Números e regras conferidos nas fontes acima na data de publicação ou de atualização do artigo. Como escrevemos.